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Criatividade e inovação: as chaves para uma organização de sucesso

Por: Leonor Almeida – Coordenadora científica do mestrado em gestão do potencial humano do ISG

A criatividade e a inovação no local de trabalho como fatores determinares para o  sucesso e sobrevivência a longo prazo das organizações.

É hoje reconhecido que a criatividade e a inovação são fatores-chave da competitividade organizacional, sendo as novas ideias, os novos métodos e os novos produtos, os motores potenciais do crescimento económico. No tempo em que vivemos já não é suficiente que as organizações façam melhor que a concorrência, é imperativo que façam também diferente, a tónica na qualidade dá lugar à tónica na criatividade e inovação

A criatividade é o primeiro passo para a inovação, que se traduz pela implementação bem-sucedida de novas e adequadas ideias. A criatividade é vital para o sucesso a longo prazo de uma Organização, uma vez que o mundo empresarial é dinâmico e sofre alterações inevitável e constantemente.

De que falamos quando falamos de Criatividade nas Organizações?
As pessoas criativas raramente são superstars como Steve Jobs, Mozart ou Salvador Dalí ,na verdade, a maioria do trabalho criativo realizado no mundo das organizações  é feito por pessoas cujos nomes nunca serão registados em livros de história. São pessoas com experiência, boas aptidões de pensamento criativo e altos níveis de motivação intrínseca. E, determinante, trabalham em organizações onde os líderes conscientemente criam ambientes que suportam essas características em vez de destruí-las (Amabile, 1998, p. 80).

Se as grandes revoluções científicas, tecnológicas, artísticas e filosóficas sempre ganharam o status de Grande Criatividade (Big-C), durante as últimas seis décadas testemunhamos um maior interesse pela Pequena criatividade (Little-c), a criatividade cotidiana das pessoas comuns (Stein, 1987). Além disso, uma correlação entre a Pequena e Grande criatividade foi amplamente reconhecida pela literatura científica. Vários programas de criatividade surgiram com o objetivo de promover modos criativos de pensar tanto em contextos escolares quanto organizacionais.

A distinção entre Big-C e Little-c permite-nos classificar a investigação sobre criatividade. Os estudos sobre a Big-C colocam a tónica na criatividade eminente, visando o conhecimento dos génios criativos e as características do produto criativo imortal. A investigação sobre a Little-c põe o foco sobre a criatividade cotidiana que se revela através de atividades mundanas nas quais a pessoa média, o “comum dos mortais” está envolvido.

Só recentemente, as organizações começaram a valorizar a criatividade e a inovação, e o seu potencial total ainda está longe de ser alcançado. Embora a maioria dos líderes acreditem na importância da criatividade para o sucesso organizacional a verdade é que muitas práticas organizacionais são assassinas do potencial criativo dos indivíduos. A criatividade é minada sem querer todos os dias em ambientes de trabalho que foram estabelecidos – por razões inteiramente boas – para maximizar os imperativos de negócios, como coordenação, produtividade e controle. Hoje em dia, muitas empresas tentam seriamente promover a inovação devido à sua crença na importância da criatividade individual e organizacional (Sohn & Jung, 2010).

Diferenciação entre Criatividade e Inovação
Na literatura em geral, alguns autores fazem pouca diferenciação entre os conceitos de criatividade e inovação, mas, na realidade, estes conceitos revelam-se distintos. Contudo, mais recentemente, parece começar a existir um consenso em termos da definição destes conceitos. Para alguns autores, a criatividade é vista como sendo um processo interno e intelectual que origina a produção de úteis e novas ideias (Scott & Bruce, 1994), enquanto que a inovação está relacionada com a produção ou adoção das ideias úteis e consequente aplicação prática dessas mesmas ideias (Scott & Bruce, 1994). Assim, pode dizer-se que a criatividade está então mais relacionada com a criação de novas ideias e a inovação, com a capacidade de colocar essas mesmas ideias em ação A criatividade e a inovação são certamente moldadas pelo contexto em que ocorrem. No entanto, não se pode descurar a ideia de que o indivíduo é a fonte de qualquer ideia criativa.

De acordo com Borghini (2005), as organizações dependem da criatividade enquanto capacidade para desenvolver ideias originais, produzir trabalho de forma inteligente e fazer descobertas científicas. Por outro lado, dependem também da inovação, já que as novas ideias devem ser implementadas por forma a que a Organização adquira uma vantagem competitiva.

Sternberg e Lubart (1991), na sua Teoria do Investimento, consideram a criatividade como o resultado da convergência de seis fatores distintos e inter-relacionados, necessários para a expressão criativa. Esses fatores são compostos pela inteligência, estilos intelectuais, conhecimento, personalidade, motivação e também, pelo contexto ambiental. Este modelo engloba alguns aspetos presentes no Modelo Componencial proposto por Amabile (1998) que descreve a criatividade como o resultado da motivação, das habilidades relevantes de domínio e dos processos criativos relevantes. Na perspetiva de Amabile (1998), considera-se que uma resposta será criativa na medida em que for apropriada, útil, correta ou de valor acrescentado para a tarefa em questão. Neste modelo é dada uma extrema importância ao papel da motivação e dos fatores sociais no desenvolvimento da criatividade, sendo necessária a interação das habilidades relativas ao domínio, dos processos criativos relevantes e da motivação intrínseca para que emerja o produto criativo.

Csikszentmihalyi (1999) apresenta o foco da sua teoria nos sistemas sociais e não apenas no indivíduo. A criatividade deve ser vista como um processo sistémico, pois o produto criativo é o resultado da interação entre os pensamentos do indivíduo e o contexto sociocultural, para além de ele próprio modificar o domínio existente ou transformá-lo num novo. Considera-se, portanto, que embora o indivíduo tenha um papel ativo no processo criativo, é fundamental reconhecer a influência dos fatores sociais, culturais e históricos na produção criativa e na avaliação do trabalho criativo. A capacidade de pensar de forma criativa e a motivação são necessárias para que um individuo produza uma ideia nova. Toda a envolvente em que o indivíduo se insere irá influenciar o seu desempenho criativo e inovador, nomeadamente no local de trabalho.

Em suma, a fronteira entre criatividade e inovação nem sempre é clara. Alguns autores defendem uma diferenciação conceptual mais forte entre criatividade e inovação. Outros argumentam que a criatividade não ocorre apenas nos estádios iniciais dos processos de inovação, sugerindo que é mais um processo cíclico e recursivo de geração e implementação de ideias. Se a criatividade é a capacidade de desenvolver ideias originais, descobrir novas soluções e promover invenções científicas, a inovação é a capacidade complementar de implementar essas ideias e soluções sem as quais as organizações perdem sua vantagem competitiva (Shalley & Zhou, 2008).

A criatividade geralmente é considerada como consistindo principalmente em processos cognitivos intraindividuais e a inovação como um processo social interindividual no local de trabalho. Segundo Anderson, Potočnik e Zhou (2014), a criatividade e a inovação são os processos, resultados e tentativas de desenvolver novas e melhores maneiras de fazer as coisas. A criatividade está relacionada com a geração de ideias enquanto que a inovação se refere ao estádio subsequente de implementação dessas mesmas ideias para melhorar procedimentos, práticas ou produtos.

Promoção da Criatividade e Inovação nas Organizações
De acordo com Amabile (1998), a criatividade organizacional deve contemplar o pensamento divergente a experiência e expertise e altos níveis de motivação. Por pensamento divergente entende-se a flexibilidade e originalidade; a experiencia e expertise estão relacionadas com conhecimento especializado e intelectual; e a motivação, especialmente a motivação intrínseca, com uma paixão genuína e sustentada para lidar com problemas, apesar do esforço envolvido. Os líderes podem influenciar a criatividade organizacional com novos desafios e responsabilidade, autonomia, recurso a trabalho de equipa, incentivo dos superiores hierárquicos e apoio organizacional, podendo ter um grande impacto sobre a motivação e, em menor medida, sobre o pensamento e a experiência divergentes (Amabile, Hadley e Kramer, 2002).

Considerando o impacto de algumas variáveis organizacionais na promoção da criatividade, Isaksen e Ekvall (2007) identificaram nove dimensões-chave do clima para a criatividade e a inovação: Desafio / Envolvimento, Liberdade, Confiança / Abertura, Idéia-Tempo, Brincadeiras / Humor, Conflito, Idea- Suporte, Debate e Tomada de Riscos. West e Richter (2008) mencionam quatro aspetos do clima organizacional que facilitam a inovação: Visão, Segurança Participativa, Orientação Tarefa e Apoio à Inovação. Em geral, as investigações sugerem que um clima de inovação adequado aumenta os níveis de inovação organizacional.

Numa perspetiva mais macro, é importante considerar que os contextos culturais mudam com o tempo e a geografia e são influenciados pelas ideologias dominantes das sociedades, tendo um grande impacto nos sistemas educacionais e no clima organizacional Zhou & Su, 2010).  Vários autores sublinharam a importância da pesquisa sobre diferenças culturais e criatividade, especialmente no que se refere às semelhanças e diferenças entre o Ocidente e o Oriente (Anderson et al., 20014). Anderson et al. (2014) mencionam vários estudos focados nas diferenças culturais na criatividade individual, nomeadamente observando os valores culturais individualismo / coletivismo e sua influência sobre líderes, colegas de trabalho e o processo individual de criatividade.

Numa Organização com uma cultura de apoio à inovação, por exemplo, os indivíduos com ideias brilhantes podem dar-lhes continuidade, sendo apoiados e incentivados pelo sistema. Uma Organização inovadora necessita então de desenvolver um clima que favoreça a criatividade tanto a nível individual como grupal, promovendo posteriormente a inovação.

Globalmente poder-se-á dizer que a criatividade e inovação são fomentadas pelos comportamentos do líder, pelo suporte da autoeficácia e pelo encorajamento para a independência. Relativamente à cultura, um contexto que reconhece o valor e a necessidade de correr riscos, de mudar, de uma aprendizagem continuada e o trabalho em equipa, como sendo cruciais para o produto criativo e inovador.

Considerando o debate sobre quais variáveis promovem a criatividade e a inovação nas organizações, é reconhecido que as novas ideias, métodos e produtos são fundamentais para a sustentabilidade e competitividade das organizações. Apesar de pesquisas consideráveis, parece haver uma lacuna entre o interesse organizacional sobre a gestão da criatividade e o investimento real em programas de promoção da criatividade (Sohn & Jung, 2010). Portanto, as organizações poderiam se beneficiar de investir no desenvolvimento da criatividade, inovação e propensão à inovação.

 

Artigo in RHmagazine, n.º 113, novembro/dezembro 2017

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