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David Green em Portugal: “Não se esqueçam do “H” nos Recursos Humanos”

A ISCTE Business School recebeu mais uma edição do Employee Experience Bootcamp. A valorização do capital humano e o poder que assume no futuro das organizações foi o denominador comum nos poderosos e inspiradores discursos dos oradores.

O paradigma laboral atravessa, atualmente, profundas mudanças, não só pela temível, para uns, proveitosa, para outros, digitalização das empresas, mas, sobretudo, pela importância que o capital humano assume no seio das organizações. E foi para discutir e repensar a experiência dos colaboradores, com efeitos na produtividade e inovação das empresas, que 170 participantes marcaram presença no Employee Experience Bootcamp, no passado dia 8 de fevereiro.

No Grande Auditório da ISCTE Business School discursaram quatro oradores que prepararam os participantes para as sessões de grupo e de design thinking que se seguiram. Filipa Larangeira, CEO & Founder da Newmanity, deu início a uma manhã de fortes mensagens. Começou por falar da sua experiência – inspiradora para a plateia que a ouvia. Em 2016, era VP People na Uniplaces e recebia um ótimo salário. Mas foi nesse ano que decidiu abandonar a empresa para fundar a Newmanity. Encontrou um novo objetivo. E é a procura de um propósito que incute em quem a ouve. Como fazê-lo? “Não deixem de perguntar porquê e oiçam o coração”, aconselhou. Para a anfitriã do evento, “ser feliz no local de trabalho deve ser o objetivo de cada um”.

A empreendedora decidiu desconstruir o conceito de employee experience. Assim, e de acordo com o Google, como referiu, experiência corresponde a atividades ou eventos de onde provêm conhecimentos e ferramentas. Já employee experience diz respeito a uma  experiência positiva para o colaborador. Estava definido o conceito que batizou o evento. No seu pitch, assumiu gostar muito de pessoas, por isso, destacou a importância dos valores individuais e da ética no seio das organizações, em detrimento das competências técnicas e das ferramentas digitais.

A 2.ª edição do evento internacional contou, também, com a presença de Tiago Muge, Associate Principal na Korn Ferry, que alertou as organizações para a necessidade de olharem para o futuro – tarefa de preparação que cabe aos recursos humanos. Considerando o contexto de digitalização organizacional, a área de RH deverá “apresentar plataformas de recursos humanos digitais, desenvolver locais de trabalho digitais e mão-de-obra digital preparada para o século XXI”, adiantou.

Segundo o também professor do ISCTE, “o mundo VUCA exige líderes mais ágeis, diversos, inteligentes e globais”. “Para que as organizações alcancem o sucesso terão de adotar novos modelos de liderança”, afirmou. O mesmo é dizer que o sucesso dos negócios pressupõe a adoção de modelos que integrem a via digital.

Muito se fala hoje em talento associado às necessidades das empresas. Para Tiago Muge, “a essência do employer brand reside na atração e retenção de talento. E, para atrair e reter talento, os processos devem ser ajustados às diferentes gerações”. “Os recursos humanos devem encontrar características específicas nos trabalhadores”, explicou. O diretor da Korn Ferry terminou o seu discurso dizendo que “o futuro do trabalho é humano” – epíteto partilhado por todos os oradores.

Cathy Brown, Diretora Executiva da Engage for Success, chamou a atenção para o facto de as pessoas quererem ser valorizadas, ouvidas e respeitadas. As organizações têm, por isso, duas opções: “controlar e monitorizar os colaboradores ou inspirá-los e respeitá-los”. Na primeira hipótese as pessoas são consideradas o problema, na segunda são a solução.

Na perspetiva da diretora, e considerando a sua experiência, “o ambiente de trabalho deve ser divertido e deve possibilitar a criação e o desenvolvimento de relações”. “Na verdade, o engagement é isso mesmo e conduz à criatividade e à produtividade do capital humano e das organizações”, assegurou. Segundo dados apresentados por Cathy Brown, 25% das empresas que praticam employee engagement duplicaram o seu lucro anual. As organizações com altos níveis de envolvimento dos colaboradores registaram um aumento de produtividade de 18% e uma taxa de rotatividade inferior à das empresas com baixos níveis de engagement (40%). Já 59% dos colaboradores considera que o seu envolvimento na organização lhe traz mais ideias.

No seguimento das palavras da CEO da Newmanity, Cathy Brown deu a conhecer os quatro fundamentos para uma experiência do colaborador positiva. É importante que “a organização adote uma forte estratégia narrativa”, ou seja, que fale do seu passado e explique para onde pretende ir no futuro. Os líderes das organizações deverão “concentrar-se nos seus colaboradores e nas suas individualidades, dar-lhes oportunidades e assumir um papel de coaches”. A solução poderá estar, efetivamente, nos trabalhadores, já que “são fundamentais para as soluções da organização”. Reforçam e desafiam visões. As empresas deverão pautar-se por uma “integridade organizacional”, cujos valores se reflitam nos comportamentos diários. A criação de um local de trabalho feliz é um dos propósitos da employee experience. Cabe aos líderes das organizações “dizer obrigado, abrir a porta do escritório para que estejam visíveis e acessíveis, aceitar que são emocionalmente mais exigentes, trabalhar a sua autoconsciência e ser recetivos aos novos desafios”, acrescentou.

Daniel Perdigão, Strategist & Visual Thinker da Upsideup, foi o responsável pela ilustração dos discursos dos intervenientes. Fotografia de Hugo Alexandre Cruz.

David Green, Diretor Global de People Analytics na IBM Watson Talent, usou da palavra para, ancorado na sua experiência profissional, falar de people analytics no futuro do trabalho e da sua aplicação na experiência dos colaboradores. Definiu o conceito como sendo “o uso de dados e ferramentas analíticas para identificar insights sobre pessoas, que permitam uma tomada de decisão empresarial mais rápida, precisa e confiável”. A análise de pessoas não é um relatório. “Fornece insights e respostas, centra-se no futuro, apresenta um alto grau de personalização e o seu público-alvo depende de cada caso”, reforçou o especialista.

Green apresentou à plateia uma fórmula que congrega a tecnologia e as expectativas dos empregados e que resulta na customização dos recursos humanos. “Com personalização, as empresas irão tratar cada colaborador como uma força de trabalho única”, afirmou.

Segundo o especialista, “a people analytics sustenta experiências do colaborador personalizadas e promove melhorias no planeamento, na performance, na produtividade e no envolvimento dos empregados”. Além disso, é uma peça central na agenda digital dos recursos humanos. “A customização dos RH conduz a uma função RH mais efetiva”, assegurou. “Já a análise da força de trabalho proporciona aos profissionais melhores decisões no que toca às pessoas e a nova organização do trabalho torna a empresa mais ágil”, referiu.

De acordo com David Green, e tomando como exemplo o caso da Microsoft, um bom líder “reúne-se com os empregados, dá feedback, despende horas no local de trabalho, aumenta a sua rede de contactos e cuida dos seus e-mails”.

As organizações que usam o Excel para realizar people analytics “focam-se no negócio, têm um conjunto equilibrado de ferramentas e capacidades, colocam o empregado no centro e integram a análise no seu ADN”, explicou David Green. Para o efeito, precisam de seis competências específicas, nomeadamente perspicácia empresarial, consultoria, recursos humanos, psicologia do trabalho, data science e comunicação.

A mensagem que David Green escolheu para encerrar o seu discurso, e que resume o contributo de todos os oradores do evento, deve ser recordada pelos líderes de RH, todos os dias, no exercício das suas funções – “não se esqueçam do “H” nos Recursos Humanos”.

 

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