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Entrevista: Mariana Coruche, AGEAS Academy e Pedro Santa Clara, Nova SBE “a academia AGEAS é um enabler da gestão do talento”

Em 2015 a AGEAS iniciou um projeto que se revelaria de enorme impacto: a AGEAS Academy. Inicialmente pensada para ser um enabler da gestão do talento neste grupo segurador, acabou por se tornar um case-study exemplar de inovação nas parcerias entre empresas e universidades. Por isso mesmo a RH Magazine quis entrevistar Mariana Coruche, Human Capital Director da AGEAS Portugal, em conjunto com Pedro Santa Clara, Professor da Nova School of Business and Economics, o parceiro escolhido para este projeto. A entrevista, conduzida por Ricardo Fortes da Costa, decorreu no campus da Nova, onde se passa uma significativa parte das atividades da AGEAS Academy.

Mariana, a Academia surgiu em 2015 como forma de dar resposta às vossas necessidades de retenção e desenvolvimento de talento. Ao fim de dois anos, qual é o balanço que faz deste projeto?
MC – A Academia surgiu em 2015 quando constatámos que em termos de atração e retenção de talentos estávamos perante um gap, quer de competências, quer de oferta de atividades premium, que fossem de encontro aos interesses destes jovens talentos. A parceria com a Nova surgiu também para colmatar essa mesma necessidade. Curiosamente, hoje em dia a parceria com a Nova é muito mais do que a Academia, porque nós temos um ecossistema montado que vai desde o Meet the Talent, que implica conhecer o talento e fazer um EVP adequado, ter um learning partner que os desenvolve e depois fechar o ciclo para reter estes colaboradores, dando-lhes a oportunidade de fazer parte do ecossistema de empreendedorismo e inovação montado pela Nova. E isto é muito mais do que a Academia (eu diria que a Academia representa ¼ deste projeto que estamos a fazer com a Nova.

Pedro, como é que é dar resposta a um parceiro tão exigente como este que a Mariana acabou de descrever? Isto é quase um “casamento corporativo”, não é?
PSC – É e é a razão de ser desta escola. Eu diria que a grande transformação que aconteceu aqui durante os últimos 5 anos foi que nos tornámos numa escola mais próxima das empresas e dos nossos parceiros (hoje em dia temos 30 parceiros corporativos) e a Ageas é um dos nossos parceiros mais interessantes porque é uma grande seguradora internacional, o que alinha muito bem com a dimensão internacional desta escola. Mas o nosso grande desafio hoje em dia é, com estes nossos parceiros corporativos, construirmos uma relação muito profunda, em que nós sejamos fornecedores de talento (queremos fazer o placement dos nossos alunos e queremos encontrar para eles os melhores empregos no mundo), em que nós ajudemos as empresas a formar as suas pessoas, a motivá-las e a “engajá-las” mais no negócio e finalmente que ajudemos as empresas a responder aos seus desafios de inovação. Afinal, a missão da nossa escola é ter impacto na sociedade, e com um parceiro como a Ageas o alinhamento é perfeito.

Se bem entendi, a criação de valor que resulta destas parcerias é percebida por vós como muito elevada?
PSC – Para nós é imensa porque a Ageas ajuda-nos a construir o novo campus, recruta os nossos alunos, faz programas de formação aqui na escola e desafia-nos a fazer coisas diferentes, como a que estamos a fazer desde Outubro, que é um Hackathon de inovação, mas também participarmos em eventos corporativos um pouco por todo o mundo ou fazermos projetos de formação na área de liderança.

MC – Fechando o ciclo do ecossistema, temos agora na área de Shared Value da Ageas um Consulting Lab, constituído por estudantes ad nova, que neste momento estão a trabalhar para melhorar projetos de shared value com impacto em termos de responsabilidade social. Portanto, neste momento é mesmo um ciclo fechado que não depende apenas da oferta formativa. Como o Pedro disse, este projeto foi evoluindo e respondendo às nossas necessidades, portanto o ecossistema também se vai construindo.

Isso leva-me à precisamente à próxima questão: toda esta dinâmica tem sido percebida de que que forma, seja na perspetiva dos colaboradores seja na perspetiva do management?
MC – Tem sido vista de forma muito positiva. Por um lado, é muito difícil encontrar no mercado quem trabalhe connosco de forma muito integrada e principalmente com a diversidade de perfis que a Nova consegue dar. Se por um lado eu tenho um Management Team sénior, que precisa de uma resposta sénior do lado do parceiro, também tenho um conjunto de talentos que precisam de um dinamismo que a Nova consegue ter com os hackathons, com a diversidade do corpo docente bem como com a diversidade dos perfis dos estudantes, o que é difícil de encontrar noutro tipo de formato de colaboração.

Pedro, como é que a Nova, que é uma business school, organiza um hackathon para uma seguradora? Isto supostamente seria uma maratona de programação. Ora nem eles são uma empresa de IT nem vocês são uma faculdade de engenharia…
PSC – Nós nos últimos anos desenvolvemos muitas parcerias com muitas empresas, e o ponto comum em todas elas é o desafio da digitalização das suas indústrias. Como mudam os seus produtos, os seus serviços e os seus negócios para responder a novos formatos de mercado. Hoje em dia uma seguradora pode concorrer com outra em qualquer parte do mundo, os consumidores agora escolhem online e o desafio tecnológico vai ser cada vez maior. Aquilo que todas as empresas nossas parceiras nos disseram foi que este tipo de problema é o que têm pela frente, e nós tomámos uma decisão estratégica fulcral que foi a de que iríamos crescer precisamente nessa área. Vai ser na área do data e do digital que vamos estar a recrutar. A fazer novos projetos e a desenvolver novos programas. Queremos estar precisamente na fronteira entre a tecnologia e o negócio, porque neste século não vai existir um sem o outro. Nós temos de produzir o que eu chamo de “tradutores”, as pessoas que são capazes de ter um pé na gestão e outro na tecnologia e que podem juntar os dois mundos. Isto passa por dar formação, inspiração e capacidade de transformação organizacional. Fazer um hackathon ou um consulting lab são tudo ângulos diversos, mas complementares para concretizar esta transformação.

MC – Sobre o hackathon, eu acho que uma universidade de gestão consegue aportar mais valor, porque consegue conciliar a inovação com a tecnologia, através de especialistas e o conhecimento de negócio que se consegue passar aos estudantes, porque eles têm mais sensibilidade ao impacto que uma ideia pode ter no negócio. Por outro lado, porquê numa seguradora? Porque a área seguradora é talvez uma das áreas mais interessantes para trabalhar em inovação: nós trabalhamos com modelos preditivos, nós trabalhamos com analytics a um nível e ritmo com que poucas empresas trabalham, nós trabalhamos com múltiplos devices, por exemplo ao nível da saúde, com modelos de casas do futuro, pelo que somos sem dúvida um campo excelente para trabalhar inovação.

Despertaste-me tanto a curiosidade que eu não vou largar o assunto: como é que fazes o hackathon? Pegas em malta do IT para participar no hackathon, fazes um mix com diversas especialidades? E a duração é mesmo uma semana ou é diferente?
MC – Existem diversos formatos. O que está em curso neste momento são precisamente 24 horas a trabalhar numa solução. 24 horas seguidas, em que temos momentos de inspiração com keynote speakers, temos DJ, temos momentos de diversão e outros de muito trabalho. E esta combinação é que leva à atração e retenção de colaboradores, porque criamos um misto de estudantes com colaboradores (que são uma biblioteca humana), e outros colaboradores que funcionam como facilitadores ou dinamizadores. Não é, portanto, um hackathon de programação pura.

PSC – De facto, o nome original veio da área da programação, onde se juntavam 100 geeks para resolver um problema. Nós importámos o conceito para um formato que pode servir para resolver qualquer problema de gestão, como desenvolver um produto ou um serviço. Misturamos colaboradores com alunos nossos e ainda vamos trazer alguns alunos da nossa faculdade de ciências e tecnologia, fora umas “wild cards” que vamos trazer para “apimentar” a mistura, umas pessoas “fora da caixa” para nos ajudar a ser mais criativos. O formato das 24 horas funciona muito bem, pois em 24 horas intensas de trabalho conseguem-se produzir resultados fantásticos.

Ou seja, isto consiste em embeber a gamification no processo de inovação, não é?
PSC – Sim, e ao mesmo tempo vamos tirar as pessoas da sua zona de conforto e fazer uma coisa nova e diferente.

MC – Não quer dizer com isso que não tenhamos outros formatos. Por exemplo, o formato do Consulting Lab também é muito interessante. Teos um grupo de estudantes com culturas muito diferentes (fruto da dimensão internacional da escola) que vão estar 3 meses a trabalhar numa solução para a Ageas. É um formato de longa duração, virado para a optimização de uma solução que já existe. Portanto temos respostas diferentes para necessidades diferentes de uma forma rápida, que é difícil de encontrar noutro tipo de parceiro.

Mariana, numa entrevista dada recentemente, disseste que a Ageas queria desenvolver uma cultura de feedback. Como é que a Academia pode suportar este propósito?
MC – De várias maneiras. Primeiro porque todos os nosso programas de liderança são baseados no feedback. Inclusive vamos trabalhar num projeto com a Nova numa Academia do Futuro em que o parte da oferta mandatória de liderança vai passar pelo storytelling, ou seja, a forma como comunicamos, com colegas, parceiros, equipas, pares, clientes. Logo toda a oferta está focada no feedback.

Também numa entrevista feita na altura do lançamento da Academia disseste que a Academia ia ser fundamentalmente digital. Hoje ainda dirias o mesmo?
MC – Perfeitamente. E estamos a evoluir para um formato ainda mais agressivo, em que a componente digital e online vai ter ainda mais expressão, que permita aos colaboradores gerir o seu tempo de aprendizagem. Os career paths vão estar cada vez mais alinhados ao tempo e disponibilidade de cada colaborador. Mas não se trata só de digitalização. Trata-se também de flexibilidade e escalabilidade. Por isso mesmo gostava de destacar o projeto MBA – Management Business Acceleration, em que vamos ter colaboradores da Ageas a ter aulas com professores de referência da Nova nas mais diversas áreas.

Pedro, tendo em conta isto, o vosso campus vai ser suficientemente high-tech para satisfazer este grau de ambição?
PSC – Estamos a trabalhar nisso. Vamos ter alguns parceiros tecnológicos importantes que vamos anunciar em breve. Estamos a desenhar, com o apoio da Accenture e da Axians, uma tecnologia muito ambiciosa que vai fomentar o trabalho colaborativo e a construção da própria comunidade, que favoreça o empreendedorismo e a inovação dentro da escola. Estamos a criar muita pressão para criar uma plataforma que permita aos nossos alunos que tenham ideias e as possas testar, seja criando apps ou outra solução diferente. E ainda estamos a criar uma plataforma que permita servir as nossas parcerias. É uma visão muito ambiciosa, feita integralmente com uma campanha de fundraising privada. Este projeto é muito interessante também na perspetiva de recursos humanos, porque esta equipa que trabalha para o novo campus é muito jovem e feita de antigos alunos da escola, que vivem com um espírito de hackathon permanente.

Por fim gostava que me dissessem como vêm esta parceria a evoluir no futuro…
PSC – Vai crescer, naturalmente, seja em âmbito seja em dimensão. Do nosso lado há uma ambição de passar a parceria do perímetro nacional para o perímetro global. Esse é o nosso grande desafio em escala. Em âmbito estou muito tranquilo, porque as ideias surgem com naturalidade fruto da nossa colaboração muito estreita.

MC – Eu espero que a parceria com a nova acompanhe a evolução do negócio da Ageas, ou seja, que seja sempre em crescendo e muito saudável. E porquê, porque a Nova, em termos de visão de human capital, responde em pleno à estratégia da AGEAS Portugal, que é atuar como uma empresa única, com um EVP próprio, capacitar as nossas pessoas para o crescimento através do empreendedorismo e do preenchimento do gap tecnológico, e por último posicionar a Ageas como um player de referência, quer internamente quer externamente.

RFC – Muito obrigado a ambos e felicidades!

Entrevista in RHmagazine, n.º 113, Novembro/Dezembro 2017

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