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Exclusivo InfoRH: Carlos Alberto Júlio, Presidente da Digital House: “Todos nós vamos ter de aprender a programar. A programação é, para a transformação digital, o que foi o inglês para a globalização”

Habituado a falar para grandes plateias, foi ao público da Altice Arena que Carlos Alberto Júlio discursou, na passada sexta-feira, dia 23 de fevereiro. Na XIV Convenção ERA, comemorativa dos 20 anos da marca, o académico e conselheiro profissional, motivou os dois mil participantes com a sua palestra sobre atitude. O InfoRH entrevistou-o a propósito da sua experiência laboral.

O que propõe com o seu trabalho?

Eu vivo no mundo académico e profissional. Conheço presidentes das empresas há mais de 30 anos, sou conselheiro profissional há mais de 30 e sou professor há 37. Tive sempre a oportunidade de juntar o prático e o teórico. Fui tendo êxito como professor – e eu avalio o êxito através da relação com o aluno –, porque vim da prática para a teoria. Escrevi os livros que publiquei com uma tónica de simplicidade. Simples, mas profundos. Quando o conceito é profundo, a linguagem tem de ser simples. E é nisso que acredito, quer na academia, quer nas organizações. Uma linguagem mais erudita e sofisticada, afasta frequentemente os jovens do mundo da gestão

A empresa moderna, a que paga contas e aquela onde os colaboradores precisam de ser remunerados, e bem remunerados, é um lugar para onde querem ir. É a empresa do propósito, a que faz sentido para servir a sociedade. Quando estamos inseridos neste contexto, o trabalho é uma diversão.

Foi esta temática que trouxe para a palestra. Falámos de planeamento, atitude, foco, disciplina e organização e falámos com leveza. E não o fiz porque o público podia ser heterogéneo, ou porque o público de vendas é mais simples. Já não há pessoas alienadas. As pessoas estão informadas. O meu respeito com o público traduz-se numa linguagem onde o lúdico e o concreto caminham juntos. Hoje, o líder das organizações deve ter uma comunicação fluída com a equipa, o que não significa necessariamente falar muito e bem. A mensagem tem de ser consistente e deve refletir os atos. Caso contrário, ninguém acredita.

Quando os líderes empresariais o procuram, que pedidos lhe fazem?

Não faço consultoria. O processo de colaboração com a formação é entendido como consultoria. O diretor da ERA vai ao Brasil, passa duas horas comigo e mostra-me o que fizeram nos últimos 20 anos. No nosso briefing, quando lhe digo o que podia ser feito, há uma absorção de conteúdos. Este devia ser o papel da academia – estar mais próxima das empresas. A consultoria é mais programática. O facto de estar há 30 anos em conselhos de administração, faz com que o meu papel como conselheiro, além de referenciar e fiscalizar a gestão dos diretores, seja participativo e responsável, também, pela gestão. O processo de participação nos conselhos de administração passa por trazer múltiplas experiências para criar novas oportunidades, novos serviços, trazer novos talentos e desenvolver pessoas. Acabo por ter um papel importante como consultor.

O tema da próxima edição da RHmagazine é o futuro do trabalho. Na sua perspetiva, como é que os líderes das empresas devem encarar o futuro das organizações, considerando variáveis como a inovação?

As pessoas acham que a transformação digital corresponde ao uso do tablet, mas a transformação digital é a linguagem do código. É a programação. Todos nós vamos ter de aprender a programar. A programação é, para a transformação digital, o que foi o inglês para a globalização. A transformação digital é o novo mundo. Um gestor de recursos humanos que não sabe fazer recrutamento online está obsoleto. Há uns anos, deixava o meu currículo atualizado nos consultores de recursos humanos e, se alguém me procurasse, encontrava-me. Agora estou no Linkedin e tudo chega até mim. Como é que um profissional de marketing contrata alguém do online ou aprova um plano online? Vai encontrar um jovem de 20 anos. Mas se não conhecer as possibilidades que o marketing online lhe dá, como vai liderar o processo? O marketing e os recursos humanos são áreas onde a transformação digital é intensa. A empresa que não fizer a sua própria transformação digital vai ficar obsoleta muito rapidamente. A inovação é fazer o novo acontecer. Inovar significa o que ainda ninguém fez. E para isso é preciso dominar a nova linguagem. Em recursos humanos, a grande preocupação é o desaparecimento dos empregos e vão desaparecer todos os empregos repetitivos. Mas vão surgir novas profissões. Quais são as novas profissões e onde encontramos os profissionais? Como é que se preparam os novos profissionais? Em Buenos Aires, vendemos 100 programas da área digital à IBM. Encontrei o diretor da empresa e agradeci o negócio, mas disse-lhe que estava incomodado. Como é que a IBM precisa de treino digital? O diretor disse-me que a IBM era tudo menos uma empresa digital. A IBM tem 60 mil profissionais no mundo, 90% não tem conhecimentos sobre digitalização.  Que oportunidade, mas que desafio para os recursos humanos – encontrar estes profissionais! Primeiro, porque não existem. Segundo, porque os cargos ainda não estão alinhados. Ainda não sabemos como designá-los. Como é que o profissional de RH os vai encontrar se os nomes ainda não estão consolidados?

A propósito da gestão do tempo e a sua relação com o aumento da produtividade, que conselhos dá aos líderes das empresas para gerirem o seu tempo?

Todos nós sabemos que devíamos fazer as tarefas mais importantes e difíceis primeiro, mas, por uma questão de comportamento, começamos pelas mais fáceis. E isto é improdutivo. Na palestra perguntei ao público como organizava o seu dia. Disseram-me que era preciso planear, mas o que é planear? Planear é decidir o que fazer. A lógica é “decido logo faço”. E é assim que trabalham diariamente?

Para o aumento da produtividade importa decidir o que fazer antes de fazer e fazer o que decidimos, porque decidimos uma coisa e fazemos outra.

Fiz uma palestra no Brasil chamada “Sobrando tempo na minha agenda”, porque tenho a certeza que metade dos meus alunos tem a certeza que sou mentiroso. Quem começa a conviver comigo pensa “dá aulas em duas escolas, tem a Locomotiva com estudos de pesquisa, tem a Digital House, é conselheiro em seis empresas, tem uma coluna diária sobre gestão na CBN, faz 100 palestras por ano, inclusive no exterior. Como é que ele faz isto? É mentira”. A outra metade quer saber como é que eu faço. Para eles, preparei uma palestra sobre gestão de tempo. Há um conceito em andragogia (técnicas de ensino de adultos – em RH é fundamental) que diz que só se descobre que se sabe quando é preciso saber. O adulto pensa numa mistura entre o lúdico e o concreto. Uma das ideias que passo é que eu faço muitas coisas, mas há uma sinergia entre todas as tarefas. Às vezes as pessoas têm dificuldade em ter disciplina. A disciplina com foco é potencializada.

O foco é a capacidade de dizer não. Quem diz sim a tudo não tem foco, mas quem diz não a tudo não faz nada e é isso que eu trabalho.

 

 

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