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Gabriel Carneiro Costa, escritor, especialista em comportamento humano e speaker: “O coaching seguiu um caminho muito motivacional e de fórmulas prontas”

Gabriel Carneiro Costa é autor de quatro livros, speaker e, porque não se identifica com o caminho percorrido pelo coaching, rejeita a designação da profissão associada. É especialista em comportamento humano. De visita a Portugal, falou com o IIRH acerca da desvirtuação do conceito e da sua essência e da idealização da vida perfeita.

É licenciado em Comunicação Social, coach profissional e autor de livros. Como é que explica este caminho?

Quando terminei a formação académica em Comunicação Social, fui fazer uma pós-graduação, de três anos, em Psicologia. No final do curso, conheci uma professora, Rosa Krauz, que estava, em 2003, a introduzir o coaching no Brasil. À época, ninguém falava de coaching no país e era uma profissão pouco conhecida. Por ter aulas com ela, comecei a gostar muito do assunto e fiz uma formação em coaching. Depois fiz uma formação em Educação Emocional, porque não queria trabalhar apenas com o coaching e, por isso, fui misturando outras áreas, como Psicologia Positiva e Psicologia Transacional. Em 2009, comecei a trabalhar com o que aprendi. Até então, trabalhava na área de marketing. Em 2011, escrevi o livro O Encantador de Pessoas, publicado no Brasil em 2012, e foi muito importante, porque foi o primeiro livro que falava em life coach. O livro permitiu-me alavancar uma carreira como speaker. Comecei a dar muitas palestras no Brasil, diminuí os meus atendimentos e dediquei-me ao desenvolvimento de conteúdos. Escrevi artigos, desenvolvi workshops e as palestras. Escrevi um segundo livro e um terceiro. Acompanhei o crescimento do coaching no Brasil e se, em 2012, tinha chegado o momento em que me sentia capaz de escrever o primeiro livro sobre life coach, em 2017, senti-me em condições de escrever um livro que faz uma crítica ao coaching e ao caminho que tomou no Brasil – o Não me Iluda, que será lançado em Portugal no segundo semestre. O coaching seguiu um caminho que não corresponde à sua essência, muito motivacional e de fórmulas prontas. Em 2016, decidi, no Brasil, deixar de assinar como coach. Comecei a assinar como autor e speaker, porque entendi que a imagem que se fez do coach não era o meu trabalho. Fiz essa dissociação.

O coaching seguiu um caminho que não corresponde à sua essência, muito motivacional e de fórmulas prontas.

Porque é que não se identifica com o coaching que é praticado hoje?

Temos alguns problemas. A formação em coaching não é regulamentada, ou seja, qualquer pessoa pode fazer essa formação. As pessoas saem habilitadas a atender outras pessoas com cursos de 20 horas. É muito mais fácil ganhar dinheiro a ministrar essas formações do que a atuar como coach. Esse processo entrou num modelo motivacional porque vende mais. É mais fácil vender dizendo que tenho os dez passos para ser feliz, cinco dicas para ficar rico, sete hábitos dos casais felizes como se existisse uma fórmula pronta e o coaching foi ocupado esse lugar, de um modelo mais americano e motivacional. Na essência não era essa a sua proposta. O coaching fazia perguntas e fazia o cliente refletir. Não tinha esse aspeto motivacional, que vende mais. As pessoas compram a ideia de fórmula pronta, de ideia mágica, para serem melhores. A base do coaching era mais questionadora. A minha área de formação em Educação Emocional também é mais questionadora. Nas palestras, digo que não vamos subir cadeiras, não vamos gritar, não nos vamos abraçar, porque não é o meu estilo. Vamos refletir a vida de cada um. Muita gente que se perdeu, tornou-se coach para ajudar os que estão perdidos. Não faz sentido. Qualquer um podia fazer o curso de coach para aplicar na sua vida. Ter a possibilidade de ser coach não devia ser tão fácil. Deviam ser exigidos mais critérios para poder atender outra pessoa.

O coaching fazia perguntas e fazia o cliente refletir. Não tinha esse aspeto motivacional, que vende mais. As pessoas compram a ideia de fórmula pronta, de ideia mágica, para serem melhores. A base do coaching era mais questionadora.

Qual é a principal diferença entre o life coach e o coach empresarial?

Tecnicamente são parecidos, mas o objetivo é diferente. Vamos partir do pressuposto que estamos a falar de dois casos bons. O processo de coaching executivo vai orientar um plano de carreira. No fim é essa a proposta. O life coach trabalha as questões emocionais, de auto-conhecimento e o seu objetivo é estar mais feliz, mais satisfeito e realizado. Há clientes que procuram o coach de vida porque querem parar, não pensar tanto na carreira e olhar para outras áreas da vida.

Que sinais permitem às pessoas identificar a necessidade de procurar um coach?

Sou da opinião que todos os seres humanos deviam procurar ferramentas de auto-conhecimento. O coaching é uma delas, a Psicologia é outra, por exemplo. Num determinado momento da vida, devemos procurar o auto-conhecimento. No fundo, é um exercício para parar e pensar em nós, o que não costumamos fazer. Hoje, existe uma grande crise de ansiedade, muita pressão associada ao trabalho, o que leva a questões não necessariamente de doença, mas a traços depressivos, distração, ansiedade, ou, o que é muito comum na minha área. Geralmente, os clientes que me procuram estão com um dilema e não conseguem resolvê-lo. Precisam de tomar uma decisão, estão com problemas no casamento, estão a pensar trocar de carreira, ou mudar de país. São dilemas marcantes, que implicam decisões importantes. Mas convém lembrar que o coaching não concorre com processos de terapia, ou de Psicologia. São processos complementares. Se existe uma profunda tristeza, um interesse em resgatar o passado, não é o coaching que vai fazer isso.

Sou da opinião que todos os seres humanos deviam procurar ferramentas de auto-conhecimento.

E considerando a grande oferta de profissionais e as suas promessas, que fatores devem pesar na escolha de um coach?

Há muitas escolas a fazer formação. Já nem sabemos quais são as melhores e as piores. As pessoas devem prestar atenção às promessas. Quando um cliente me procura, digo-lhe que só o posso ajudar a refletir sobre a sua vida. Acho que temos de diminuir o desespero que nos faz comprar uma promessa de salvação. Deixo esse alerta. Quem diz que em cinco sessões vai curar a vida de alguém, ou que em dez vai aprender a ganhar dinheiro, não está a dizer a verdade. Ninguém pode fazer essas promessas, porque o caminho é do indivíduo. Como o mercado cresceu, é importante procurar referências, indicações de amigos, de colegas, ou de alguém que já tenha feito coaching.

As pessoas devem prestar atenção às promessas.

Que resultados podem, então, ser alcançados?

O importante é que o coaching, na sua essência, vai ter sempre uma componente de ação, ou seja, de levar o cliente a agir. O resultado que vai advir dessa ação, não sei qual pode ser. Posso prometer ferramentas, estímulos, insights, questionamento e um apoio que, como profissional, posso dar para que a pessoa construa o seu plano de ação. Se isto a vai tornar mais feliz, ou mais rica? Não sei. O auto-conhecimento e um plano de ação são os dois resultados que podem ser obtidos.

Como é que descreve o percurso que traçou como autor?

Uma coisa é escrever livros, outra é ser escritor. Só no terceiro livro é que dei conta desta diferença. O primeiro livro, O Encantador de Pessoas, lançado em Portugal em 2017 e em 2012 no Brasil, é um livro de casos reais, com diferentes assuntos, para que o leitor se possa identificar. É um livro que convida a agir. Dois anos depois, percebi que fazer nem sempre é o mais importante. Também precisamos de desacelerar. Lanço, então, o segundo livro, entrando por uma linha mais filosófica e romântica e começo a gostar dessa escrita. À Sombra da Cerejeira é a história de um avó que faz dez encontros com o seu neto debaixo de uma cerejeira, para questionar a vida e fazer o neto pensar. Como gostei desse modelo de escrita, lancei o Ponto Ágape, que é o meu favorito e que deverá ser publicado em Portugal. Não fala de coaching. Com a experiência percebi que os processos de mudança mais bonitos que pude partilhar foram motivados por amor. Todos tinham a componente amor – amor próprio, por alguém, ou por um sonho –, que chamei Ponto Ágape, que é amor maior, ou um ponto de mudança, por isso é que fiz esta expressão. Quando acedemos a este ponto ágape, por um processo de dor, ou não, atingimos um processo de profundo amor e de mudança. É um processo de mudança mais profundo. Quando decidi afastar-me da expressão coach, comecei a ser questionado pela imprensa brasileira sobre o porquê de ter abandonado a expressão. Foi o que me inspirou a escrever o Não me Iluda, voltando ao estilo de escrita do primeiro livro. Questiona o coaching, mas sobretudo a idealização da vida perfeita. Nas redes sociais somos todos bonitos, todos têm dinheiro, os filhos obedecem. A vida real não é a vida idealizada. A procura pela perfeição e a mentira das redes sociais está a deixar-nos tensos, ansiosos e deprimidos. É um livro que pretende desconstruir. Qualquer um tem medo. Todos os casamentos têm frustração. A ideia de que não nos falta nada é mentira. O Não me Iluda é uma reflexão das ideias prontas. Não responde a nada, mas é provocador. A vida é feita de tristezas, de desilusões e de frustrações. Vamos aceitar que assim é e que faz parte do processo, para a partir daí conseguirmos ter alegria e satisfação.

Na ditadura do parecer e das redes sociais, o que é que contamina as relações humanas?

As redes sociais são apenas um fragmento positivo da vida. Não devemos olhar para elas e pensar que correspondem à vida dos outros. Há os que procuram essa necessidade de parecer e outro grupo que é menos exibicionista, mas refém da ditadura do pertencer.  E aqui temos parte da população. O modelo de medir a felicidade a partir das redes sociais é por comparação, o que é mau. Para além de só compararmos um fragmento, só é possível comparar a linha de chegada e não o percurso percorrido até ali. Também comparamos a vida idealizada com a vida que temos hoje e vamos ver que falta sempre alguma coisa. A comparação que me parece ser a mais adequada as redes sociais não fazem, que é comparar o que somos hoje com o que fomos ontem.

As redes sociais são apenas um fragmento positivo da vida. Não devemos olhar para elas e pensar que correspondem à vida dos outros.

 

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