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José Simões e Rui Brandão, Fundadores da Zenklub: “Ainda desvalorizamos o impacto dos problemas emocionais e comportamentais nas organizações”

Num país que apresenta a mais elevada prevalência de doenças mentais (22,9%) da Europa e em que só 13% das empresas portuguesas sabe lidar com o stress no local de trabalho – razão de mais de 50% das faltas dos colaboradores –, é premente que as empresas cuidem do bem-estar emocional dos seus colaboradores.

A Zenklub, startup portuguesa criada por Rui Brandão e José Simões, constitui-se como uma forte aliada nessa missão. Desde o seu lançamento, em agosto de 2017, no Brasil, tem desenvolvido um trabalho de consciencialização, conjuntamente com os recursos humanos das empresas, para a importância dos colaboradores cuidarem do seu bem-estar emocional e dos efeitos que daí poderão advir – aumento da produtividade e satisfação no trabalho.

O “ginásio para a mente” recorre a uma plataforma para prestar consultas de psicologia online e, através dela, as empresas proporcionam aos seus colaboradores uma rede de especialistas de diferentes áreas, como terapia cognitivo-comportamental, coaching ou mindfulness, de uma forma cómoda e com horários flexíveis. Aos seus trabalhadores é-lhes dada a oportunidade de acederem a vídeo-consultas com psicólogos, onde e à hora que desejarem. Precisam apenas de um dispositivo com câmara fotográfica e com ligação à internet. A plataforma utiliza uma tecnologia de vídeo-consulta encriptada, para garantir a privacidade das sessões entre profissionais e clientes.

Qual é a proposta de valor da Zenklub?
A Zenklub surge para ajudar as pessoas a conhecerem-se melhor, explorarem o seu potencial e viverem uma vida mais completa, com maior propósito. É esta a nossa proposta de valor. Nos tempos que correm, em que estamos sempre conectados e com cada vez mais pressão no trabalho e em casa, é difícil gerirmos as nossas vidas sem as ferramentas e o apoio certo.

Conte-nos de onde surgiu esta ideia e quais são os objetivos que querem alcançar.
Rui Brandão: Como médico, vejo cada vez mais pessoas a adoecerem por consequência dos seus estilos de vida, e por não investirem no seu bem-estar. Devemos cuidar da nossa mente da mesma forma que cuidamos do nosso corpo. Dedicamo-nos ao corpo no ginásio, mas isso é apenas parte da equação. A outra parte seria um “ginásio para a mente”, e é assim que gosto de descrever a Zenklub: um sítio onde podemos investir preventivamente e proactivamente no nosso bem-estar emocional. Idealizámos a Zenklub como a solução perfeita para oferecer uma experiência personalizada de desenvolvimento pessoal, de forma rápida, intuitiva e acessível. Cada um poderá contactar o especialista mais indicado para si, baseando-se nas suas necessidades e objetivos individuais. Em cinco minutos posso ser atendido por um profissional, na comodidade de minha casa, e em três semanas posso ter resolvido um problema emocional que persiste há meses. Tudo isto sem viagens, sem estacionamento, sem salas de espera e de qualquer lado do mundo.

O que diferencia a Zenklub no que toca à inovação tecnológica?
A nossa plataforma integra toda a jornada do cliente: procura de profissional, marcação, pagamento e vídeo-sessão. Com a vantagem de todo o processo poder ser feito no próprio dia, ou em segundos, através da nossa funcionalidade de “sessão na hora”. Para além de todas as vantagens da vídeo-sessão – a flexibilidade horária, a acessibilidade, o preço –, a Zenklub facilita imenso a escolha do profissional: o cliente pode ver o currículo do profissional, um vídeo de apresentação e até avaliações de outros clientes. Esta transparência é fundamental. Se mesmo com toda esta informação o cliente precisar de mais ajuda, oferecemos um serviço de concierge, em que recomendamos os profissionais mais indicados para cada cliente.

De que forma tem desenvolvido o trabalho de consciencialização da importância do bem-estar emocional no trabalho junto dos Recursos Humanos das empresas portuguesas?
A consciencialização e o combate ao estigma são dois dos nossos maiores desafios. É evidente que, de uma forma geral, ainda desvalorizamos o impacto dos problemas emocionais e comportamentais nas organizações. Temos abordado estes desafios de várias formas:

– Campanhas de comunicação para os colaboradores e Direção de Recursos Humanos (DRH): divulgação de estudos e casos relevantes, dicas dos nossos especialistas, ferramentas e exercícios “do-it-yourself”, entre outros conteúdos.

– Activações presenciais nas empresas: talks e workshops com os nossos especialistas sobre múltiplos temas e especialidades relevantes para o bem-estar emocional, mostrando como pode ser fácil obtermos resultados mudando alguns hábitos de vida.

No início de 2018 vamos lançar um “chatbot” para comunicarmos com os colaboradores diariamente, de segunda a sexta-feira, com pequenas dicas e exercícios para o desenvolvimento de melhor comunicação, autoestima, motivação e produtividade.

Qual o perfil de empresa que procuram para implementar esta ferramenta?
Acreditamos que podemos acrescentar valor à vida de qualquer pessoa e, portanto, também a qualquer empresa. Temos soluções talhadas para pequenas, médias e grandes empresas.

Portugal é o país com a mais elevada prevalência de doenças mentais da Europa. O que considera que tem faltado nas nossas organizações para combater este flagelo?
Investimos muito no processo de recrutamento, mas pouco no processo de retenção. De nada serve contratarmos os melhores, se eles não derem o seu melhor. Precisamos de interiorizar o seguinte: existe uma relação importante entre bem-estar e produtividade. As empresas devem avaliar e investir em toda a experiência do colaborador, dentro e fora de portas, não só das 09h – 18h e não só na sua relação com o trabalho. O conceito “work-life balance” está desactualizado: “work” é uma parte integral de “life”, não há um hífen que os separe. Os DRHs devem focar-se no “life balance” dos seus colaboradores e isso inclui, inevitavelmente, um olhar atento sobre o bem-estar emocional.

De que forma a área de Recursos Humanos pode colaborar com as chefias, para que a empresa encontre o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal e profissional dos seus colaboradores?
Os DRHs são uma peça fundamental no alinhamento dos interesses dos colaboradores com os da empresa. As chefias são focadas em resultados. Em números. Qualquer líder que queira crescer o seu negócio irá investir em ações que contribuam para atingir a meta da semana, do mês, ou do ano. Isto requer que os DRHs evidenciem o impacto das suas acções em termos de “bottom-line”. Para tal, é importante medir resultados, estabelecer KPIs e mostrar a influência dos mesmos nas contas das empresas. Materializar esta relação entre valorização do capital humano e “bottom-line” é um papel indispensável nas organizações.

No caso do bem-estar, por exemplo, já está provado em dezenas de estudos internacionais que investir na saúde emocional dos colaboradores gera um ROI positivo. A vasta maioria dos estudos demonstram retornos de duas a quatro vezes, tornando-se claro que empresas que não investem nesta vertente estão a perder dinheiro. São precisas mais ações e ferramentas focadas na valorização do capital humano, sendo a Zenklub um bom exemplo.


Zenklub e as empresas

Em Portugal, empresas como a Uniplaces e a Jerónimo Martins já colaboram com a Zenklub, sendo que, para além de trabalhar temas de ordem pessoal, é possível direcionar as consultas para temas de liderança ou coaching, por exemplo, conforme as necessidades das empresas e dos seus colaboradores. De acordo com Liliana Cardoso, People Operations Manager da Uniplaces, “desde 2016 que a preocupação com o bem-estar psicológico e físico dos colaboradores é uma prioridade máxima”. “Daí termos vindo a desenvolver várias parcerias no sentido de melhorar o dia-a-dia dos Uniplacers, dentro e fora do escritório, apostando cada vez mais no equilíbrio vida-trabalho. Mesmo tendo algumas parcerias com gabinetes de psicologia, sentíamos que ainda poderíamos fazer mais”, afirma a responsável ao InfoRH, acrescentando que “a parceria com a Zenklub, com início no Verão de 2017, colmatou esse sentimento”.

Os colaboradores da Uniplaces têm acesso a uma “vasta lista de profissionais, onde podem consultar o resumo profissional e as principais áreas de atuação, agendar facilmente as suas sessões, consultando facilmente os valores praticados”, explica. “A principal vantagem para o nosso target populacional é o facto de a sessão ser online. Neste momento, a taxa de utilização da plataforma é de cerca de 10%, tendo já pensadas iniciativas para aumentar este número em 2018”, garante Liliana Cardoso.

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2 Comments

  1. Maria Albuquerque
    19 Janeiro, 2018 at 16:44 — Responder

    Adorei a ideia.. pena que as empresas não olhem tanto para isto!

  2. Joao Esteves
    23 Janeiro, 2018 at 16:01 — Responder

    Recomendo! Já uso o serviço ha 2 meses e sou fan 😉

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