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Línguas estrangeiras: uma excelência no currículo

Numa sociedade que diariamente lida com um tecido multicultural perigosamente rico, porque perturbador e, não raramente, gerador de conflitos e de tensões, importa equacionar a necessidade de atenuar as diferenças e de criar inevitáveis pontes.

E essas pontes só se constroem se houver elos de contacto, se a comunicação se conseguir efetuar de modo simples, ágil e natural. Desde muito cedo, há séculos, que se percebeu que o conhecimento da língua do outro era essencial para haver intercâmbio, desde as trocas comerciais às culturais. Relatos de viagens demonstram claramente quão importante sempre foi a possibilidade de comunicar e, antes de mais, de comunicar sem a presença de um intérprete ou de uma «língua», como se dizia no século XVI.

Este sentir comummente aceite e experienciado em múltiplas situações torna-se urgente com a globalização a que temos vindo a assistir e com o trânsito obrigatório entre comunidades diferentes, afastadas, sem tradição de intercâmbio. Hoje, não podemos conceber que alguém com responsabilidades de chefia ou de gestão não conheça pelo menos uma língua estrangeira (leia-se, inglês) e não seja capaz de interagir sem o auxílio de um intermediário, que, queiramos ou não, dificulta a comunicação. Não poderá haver verdadeira interação sem se poder gerar uma cumplicidade que só aparecerá com a partilha de um código comum.

A exigência cada vez mais frequente do conhecimento de línguas estrangeiras torna-se um natural requisito, uma condição necessária para se poder entrar num mercado de trabalho cada vez menos provinciano ou confinado a fronteiras mais ou menos estanques.

E é claro que o conhecimento de várias línguas estrangeiras só poderá ser valorizado e o domínio de línguas menos conhecidas ou menos comuns é de per si uma mais-valia dificilmente ignorada. Todos percebemos a importância de se conhecer o francês, o alemão, o espanhol, o japonês, o coreano ou o chinês, quando se quer negociar com esses mercados. Mesmo se os interlocutores dominam o inglês, o uso da língua do outro abre portas desconhecidas, cria um ambiente de cordialidade, que potenciará bons resultados.

A criação de empatia passa por muitos fatores, que vão desde os culturais aos económicos, passando pelos psicológicos ou científicos. No entanto, parece-me claro que o uso deliberado da língua do outro, o esforço em comunicar diretamente é normalmente acolhido com simpatia. Tive várias dessas experiências em Universidades de língua francesa ou espanhola e sempre percebi a delicadeza que se gerava quando eu usava inesperadamente a língua do interlocutor.

A consciência desta crescente importância é visível no interesse de muitos jovens na aprendizagem das línguas estrangeiras, para além das estritamente curriculares. O volume de negócios, traduzido na procura de mercados alternativos e diferentes, não se compadece com um atavismo cultural que só pode jogar desfavoravelmente. O dinamismo da nova geração também se traduz nesta vontade, decorrente de um sentir aguçado e de uma vontade de conviver com os melhores. Só dominando a língua franca (inglês) e/ou a língua do outro nos podemos situar nessa vertente inovadora e definitivamente competitiva.

O domínio das línguas pode tornar-se tão importante como os das técnicas de mercado; quem não as domina corretamente sentir-se-á excluído e menorizado.

Como diria Goethe, «Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada da própria».

 

Autora: Fátima Marinho, Vice-Reitora da Universidade do Porto

 

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