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Maria Helena Anjos, Presidente da International Coach Federation – “Ser Coach é ser isento, rigoroso, credível e reconhecido pelos clientes”

Entrevista com Maria Helena Anjos, Professional Certified Coach, Presidente da International Coach Federation

O que a fez aceitar o desafio de ser a nova Presidente da ICF?
Paixão por esta Arte! No mandato anterior, assumi o cargo de Vice-Presidente e, ao fim de dois anos de trabalho árduo e muito compensador, fiquei com vontade de não abandonar o navio. Queria dar continuidade à obra que tínhamos desenvolvido, que foi reconhecida internacionalmente. Portugal voltou a estar no mapa da ICF, no mapa do Coaching profissional. Estava consciente de que tinha muito trabalho pela frente. Era importante consolidar as boas práticas concretizadas nos dois anos anteriores, assim como produzir interessantes momentos de aprendizagem. Para tal, decidi, com a equipa, apostar fortemente em ganhar a confiança dos membros. Esse trabalho foi feito com o foco no envolvimento dos mesmos em atividades que trouxessem mais valor para o Chapter. E sim, digo-o com orgulho, está a acontecer! Os artigos de opinião que saem na nossa newsletter mensal são escritos por membros ICF. O conteúdo e a condução dos eventos também são da responsabilidade de membros que se oferecem para o fazer, ou que são convidados.

Que objetivos tem para a ICF?
Fazer obra capaz de impulsionar o Coaching profissional para níveis de excelência. Um dos objetivos já está a acontecer, e passa por contribuir para que o Chapter da ICF seja a entidade com maior credibilidade e reconhecimento, ao nível nacional. O nosso programa inclui um objetivo que me apaixona: envolver os membros no Chapter, permitir que sintam que pertencem a uma comunidade sólida que quer continuar a construir momentos de aprendizagem e partilha de saberes. Esses momentos passam por fazer tertúlias e outros eventos que cheguem aos participantes, que toquem as suas necessidades, que abrandem os seus receios, que lhes permitam confiar na solidez deste projeto. Fazemos dois eventos mensais. Um deles é um Ciclo de Conversas sobre “O Coach também tem dúvidas”. Lançámos o desafio e constituiu-se um grupo de coaches interessados, grupo esse que se mantém coeso e presente em cada sessão. Trazem dúvidas e pedem ajuda. Refletem em conjunto e as respostas internas começam a aparecer com contornos de aceitação; o outro é um workshop temático, que responde às diferentes necessidades dos coaches. Como exemplo, podemos dedicar duas horas a falar do poder do silêncio em Coaching, um tema difícil mas muito poderoso, mas também podemos passar duas horas a falar das diferenças entre membro certificado e credenciado, e das particularidades e vantagens de cada um destes estatutos. Continuar a divulgar o livro Coaching: ir mais longe cá dentro, um verdadeiro manual de Coaching, escrito por 24 Coaches credenciados, é outro dos objetivos. Aumentar o número de membros, que podem usufruir dos benefícios de ser membros ICF, tem sido um objetivo pelo qual luto em cada dia. A criação de Comités com voluntários de luxo, membros da ICF, era outro dos nossos objetivos, solidamente conseguido, assim como a parceria com universidades e a partilha de boas práticas com os Chapters da região EMEA.

Como está estruturada a ICF. Como é composta a vossa equipa?
A ICF está estruturada em dois blocos: uma Direção com cinco cargos; cinco Comités constituídos por membros da Direção e voluntários muito ativos, membros da ICF. A nossa equipa eleita é composta por: Presidente (Helena Anjos), Vice-Presidente (Cristina Madeira), Secretário (Ana Conde), Tesoureiro (estou a acumular, porque o Tesoureiro pediu a demissão) e Vogal (Paula Resende). É com muito orgulho que vos apresento os Comités em atividade: Comité de Eventos, Comité de Comunicações, Comité de Apoio aos Membros, Comité de Coaching Solidário e Comité de Ética.

O coaching tem sido cada vez mais adotado nas empresas portuguesas. Quais são os principais reflexos que este processo tem gerado na produtividade dos colaboradores?
Sim, o Coaching encontrou o seu lugar nas empresas portuguesas e esta é uma realidade que está em permanente evolução. A produtividade dos colaboradores que têm a oportunidade de usufruir de um processo de Coaching pode ser associada a distintos fatores de mudança. Refiro-me a reposicionamento do estilo de liderança para melhor servir a equipa de liderados; mudança nas relações interpessoais de modo a potenciar a cooperação e partilha; conhecimento dos objetivos a cumprir e adoção de métodos adequados à concretização dos mesmos; revisitar e mudar antigos hábitos usados em processos de mudança de cultura; adoção de práticas para reuniões mais produtivas; tomadas de decisão mais inclusivas; adoção de cultura de problem solving versus problem raising; melhoria na gestão de tempo; team bounding. Fruto dos resultados positivos conseguidos com esta arte de construir futuro, as empresas expandiram o seu interesse para processos de Team Coaching e Group Coaching. O Coaching individual continua a ganhar adeptos.

Sabe-me dizer qual é o perfil do profissional que recorre ao coaching?
Ana, gestora, diz: “(…)percebi que precisava da equipa de coaching da empresa para trabalhar as emoções e o pensamento estratégico e crítico das pessoas da minha equipa. (…)”
Hoje em dia, quem recorre a serviços de Coaching pode ser desde o profissional que necessita de transformar a sua forma de estar e percecionar no ambiente de trabalho, ou o profissional que tem motivos pessoais que interferem no seu desempenho. O desenvolvimento de uma ou mais competências estratégicas para a função de liderança é quase transversal a todos os pedidos. As motivações são muito distintas e um processo de Coaching pode dar resposta a questões do foro pessoal com impacto na vida profissional do sujeito (autoestima; autoconfiança; comunicação consciente; medo de não ser reconhecido; work-life balance; desemprego; etc.) ou do foro profissional, que impacta na esfera pessoal (motivação de equipa; posicionamento como líder; falar em público; gestão de reuniões; inteligência da conversação; inteligência emocional; feedback eficaz; delegação; responsabilização; avaliação de desempenho).

E quem pode ser coach?
Para ser Coach é importante ter maturidade profissional, ter experiência corporativa que permita entender um ambiente onde vivem as relações de poder, os diferentes estilos e fluxos de comunicação, bem como a cultura teorizada e vivenciada. É fulcral reforçar que o Coach ICF respeita sempre o Código de Ética e salvaguarda a confidencialidade das sessões. A Ética é a bandeira do Coach e o caminho para a excelência é o seu foco! Ser Coach é ser isento, rigoroso, credível e reconhecido pelos clientes. A experiência como líder faz parte do package ideal de competências do Coach. A capacidade de relacionamento interpessoal, a escuta ativa, a flexibilidade e a capacidade para usar perguntas poderosas, que sirvam a necessidade do cliente, são também algumas das competências core do quadro de referência da nossa federação. A atuação de um Coach ICF é pautada ainda pela capacidade em dar feedback construtivo de responsabilização, criar um contexto sem julgamento para a tomada de consciência, estabelecer em parceria com o coachee (cliente) metas e planos de ação, bem como a competência para suportar um processo de transformação através da visualização organizacional. O processo de Coaching dentro de organizações deve estar sempre alinhado com os objetivos das mesmas. Para ser Coach ICF o candidato deve passar por uma formação profissional de 125 horas e 100 horas de prática para o 1º nível de credenciação. Existem três níveis de credenciação que o Coach percorre durante o seu processo de evolução e mestria. Estes níveis dependem do número de horas de experiência e do número de horas que investir em formação de desenvolvimento focado nesta atividade.  A supervisão aparece como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento do Coach. Ter a ajuda de um profissional mais experiente quando surgem as dúvidas, os bloqueios e os medos, permite que o Coach a pense de forma mais fluída e segura. Ser Coach é estar ao serviço do outro, é munir-se de uma disponibilidade imensa. Ser Coach é ter consciência de que os silêncios no processo de Coaching são momentos poderosos de reflexão, momentos em que o coachee se questiona, se põe em causa e se encontra inteiro e seguro.

Que conselhos daria a um profissional que ainda não viu no Coaching uma melhoria de qualidade de vida profissional e pessoal?
A única forma de experimentarmos melhorias em cada faceta da nossa vida é através da coragem para dar um passo diferente, para arriscar o desconhecido, para experimentar mesmo o que nos pode parecer que não vai resultar. O Coaching permite que cada pessoa se desafie em cada reflexão, em cada tarefa, em cada ação nunca executada, em cada frase nunca proferida. Diria que o mundo do Coaching é um mundo que faz magia com as palavras. A junção certa de palavras leva um Coachee para um patamar muito além daquilo que alguma vez por si só poderia pensar. O Coaching facilita mudanças de perspetivas – antes do Coaching, as nossas perspetivas invadiam-nos com sentimentos de frustração porque não conseguíamos ver de outra forma. O Coaching facilita mudanças de crenças – as que nos habitavam antes do processo de Coaching eram limitadoras, sempre as tomamos como certas, sem espaço para pensar, fazer ou sentir diferente. Existem momentos na vida de cada ser humano em que somos assaltados por perguntas aparentemente inesperadas e que são uma quase-resposta a necessidades silenciadas. Essas perguntas impactam fortemente no nosso ser. No processo de Coaching, operam-se respostas de mudança que nos sossegam, nos dão conforto. São respostas que já nos habitavam e surpreenderam-nos ao aparecerem com contornos nítidos. Pertencem-nos.
Um líder de uma equipa operacional estava exausto porque não conseguia controlar a irreverência dos seus trabalhadores. Desistiu de gritar porque já nem isso resultava. Passou a fazer inúmeras tarefas sozinho para não quebrar o compromisso com a empresa. Desistiu de dormir. Ao fim de quinze dias, foi integrado num programa de Coaching que estava a decorrer na empresa. Entrou desconfiado. Estava muito cansado e precisava de todos os minutos. O Coach foi ouvindo o seu cliente e face a tanta amargura perguntou “o que está a ganhar com isto?”. Não tinha resposta e ficou em silêncio. Quando o tempo da sessão estava a terminar, olhou para o Coach e respondeu “para sentir que sirvo para alguma coisa”. E o processo continuou com o seu envolvimento e com descobertas que lhe davam cor aos dias.
Parece que de repente alguma coisa aconteceu. Não existe nada que aconteça de repente. Existe sim um momento em que acumulamos muitos pensamentos repetitivos e a frustração e desgaste nos roubam todas as forças. Queremos mudar e não sabemos como. Como o nosso registo de pensamento faz parte de um padrão de muitos anos, consultar um Coach para perceber de que forma a nossa vida pode ter outra “cor” é um ato de elevada coragem. Aqui começa a mudança.

O que podemos esperar para o futuro do Coaching em Portugal?
É hoje que construímos os alicerces do futuro do Coaching. Mais preparados, mais conscientes do que podemos oferecer a cada cliente, a cada empresa, a nós. Sim, podemos acreditar num futuro onde a profissão de Coach é uma profissão credível, pautada pela integridade e respeito pelo ser humano. Os padrões de conduta ética pelos quais a nossa Federação se rege são de elevada exigência e a sua solidez estará presente no futuro desta atividade. O futuro do Coaching em Portugal está fortemente associado à afirmação da ICF no nosso mercado. A ICF consolida a excelência do Coaching e este propósito é cumprido pelos Coaches credenciados, que investem, em consciência, na qualidade das sessões que fazem com cada cliente. Num futuro próximo, acredito que continuaremos a investir numa comunidade onde existe a integração de profissionais com experiência e outros que a estão a construir, onde cada ação de voluntariado visa a construção de uma sociedade mais forte e com igualdade de direito ao desenvolvimento pessoal e profissional. E os resultados extraordinários irão estender-se a mais clientes, a mais empresas. Acreditamos na conceção de projetos que visam o alargamento da esfera de influência da atividade junto de organizações, escolas, universidades e associações de cariz solidário. Queremos que num futuro próximo exista um conhecimento mais claro sobre o que significa ser um Coach ICF e quais os benefícios de um processo. É urgente que, num futuro muito próximo, o mercado saiba distinguir o Coaching profissional do Coaching sem contornos sólidos. É urgente que o mercado esteja preparado para fazer escolhas amadurecidas que vão ter um impacto muito positivo na evolução dos seus recursos humanos. Vamos continuar a acompanhar as tendências e partilhá-las com a nossa comunidade. Vamos continuar a apostar na divulgação de uma marca sólida, a ICF, a federação de Coaching Profissional mais relevante ao nível Mundial.

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