Pessoas

Pedro Ramos, Diretor RH, Grupo TAP Air Portugal – “As pessoas são, sem dúvida, o bem mais precioso”

Foi a partir do dia 1 de setembro que Pedro Ramos assumiu o cargo de diretor de recursos humanos do Grupo TAP Air Portugal. A RHmagazine foi falar com Pedro Ramos a bordo do A330 “Dona Maria” da TAP Air Portugal.


Acabou de aceitar o cargo de DRH do Grupo TAP: pode-nos explicar o seu percurso para chegar até aqui?

Sou um profissional com mais de 20 anos de experiência em gestão de topo RH, em várias empresas de grande dimensão. Iniciei a minha atividade profissional na área do desenvolvimento de pessoas e formação no início da última década do século passado (risos…), mas rapidamente passei a assumir uma maior responsabilidade pela gestão integrada das pessoas nas empresas onde tenho passado. Assim, para além da Groundforce onde fui diretor de recursos humanos e administrador executivo nestes últimos anos, a minha carreira de responsável de topo de RH passou também pela CARRIS, pela OGMA, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, entre outras empresas. Em todos estes projetos desenvolvidos existe uma “marca comum”: em todos eles estive envolvido em processo de gestão da mudança e transformação. Julgo que o que me pode distinguir de outros profissionais “deste ofício” é o facto de ter sido sempre um profissional sem nunca ter perdido de vista um aprofundado crescimento, materializado numa aposta na minha formação académica associado ao facto de, sempre que possível, estar presente na academia enquanto professor e em diversos eventos enquanto orador e facilitador nestas áreas de gestão de pessoas e liderança. Esta grande atividade tem facilitado bastante tanto o meu processo de crescimento profissional como a forte relação das empresas com o seu mundo exterior, no que toca às suas práticas e processos de gestão das pessoas.

Pois… é verdade… Sempre apostou muito na formação: isso foi importante neste seu percurso profissional?
Sim, sou um “colecionador” de títulos académicos… Tenho todos, de bacharelato a doutoramento, (risos). É verdade, mas eu gosto de colocar a questão a seguinte forma: eu nunca deixei de ser aluno! E isso tem sido essencial para mim em duas vertentes principais: (1) esta aposta na formação permanente foi sobretudo uma necessidade de ir buscar competências hard para poder responder de forma eficaz aos desafios que tenho tido em mãos, ou seja para de forma muito pragmática responder às minhas necessidades técnicas; e (2) é neste percurso enquanto aluno que me tenho disciplinado e organizado enquanto profissional. A formação académica ajuda-me a manter-me organizado, impondo-me a mim próprio rigor, eficácia, disciplina e muita resiliência…

E as competências soft? Onde as vai buscar?
Basicamente trabalho uma forte network que me tem permitido estar presente em momentos poderosos de partilha, de comunicação com vários grupos e onde em outros profissionais de gestão de pessoas podemos aprofundar e explorar novas e renovadas formas de estar na função, nas empresas e a posicionar a área de gestão das pessoas junto dos círculos da decisão das empresas. Sou um comunicador convicto, sou um fanático por equipas e por pessoas… Acredito que as pessoas são o melhor das empresas, mas que também “podem ser o pior nas empresas”… O papel de um DRH é fazer amplificar esse “melhor das empresas” e trabalhar muito para “reduzir ou minimizar esse pior”, de modo a dar sentido à organização no seu todo e potenciar uma adequada e positiva relação na equação Pessoas e Negócios. Gosto de palavras e expressões tais como: confiança, entusiasmo, mobilização, coesão e, sobretudo, foco nas pessoas para a obtenção de resultados… Gosto de aprender e de partilhar, de ajudar a valorizar a experiência e de celebrar os sucessos, por exemplo…

E quais foram os principais motivos que o fizeram aceitar este novo desafio profissional?
“Desafio” é mesmo a palavra chave! É um enorme desafio poder participar num “momento histórico” da nossa Companhia de Bandeira… Poder ajudar neste processo de mudança e de transformação em curso…. E poder contribuir para reforçar ainda mais o employer branding da Companhia que já é bastante elevado.

Ficou alguma coisa por realizar na Groundforce?
Nestes últimos anos, exerci na Groundforce a função de diretor de recursos humanos, mas também assumi, durante 30 meses, o cargo de administrador executivo com os pelouros de RH, operações, comercial e TI. Isto deu-me uma visão muito integrada do que pode ser um conceito de gestão das pessoas completamente alinhado com o negócio e a estratégia das empresas. Curioso é que esta minha experiência anterior e muito recente na Groundforce possibilitou-me a assunção de vários papéis no quadro das interações com o Grupo TAP, pois fui (pessoalmente e em simultâneo) cliente, fornecedor de serviços e parceiro muito privilegiado da TAP, nos diversos contextos e processos em curso. Enquanto administrador das operações e da área comercial da Groundforce, a TAP era o meu principal cliente e “foco”, no que respeita ao envolvimento das várias equipas na prestação de um serviço de excelência, em conjunto com os interlocutores TAP. Acompanhei de muito perto as operações TAP no “terreno” de forma diária. Enquanto administrador dos RH e diretor de recursos humanos, pude beneficiar dos serviços prestados pela TAP Serviços, nas diversas vertentes da gestão administrativa RH, bem como os serviços de outras empresas do Grupo TAP como a UCS (Unidade de Cuidados de Saúde) e da Megasis (empresa de IT do Grupo), por exemplo. Outros foram os processos em que estive envolvido ou que coordenei e nas quais pude contar com o envolvimento de excelentes profissionais do Grupo TAP. Necessariamente, este conhecimento anterior e experiência anterior representam uma mais-valia no meu novo enquadramento à frente dos destinos da DRH de todo o Grupo TAP Air Portugal. A Groundforce é uma empresa de pessoas para pessoas, com níveis de serviço definidos e está no bom caminho para continuar a fazer o seu percurso…

E agora na TAP: qual o seu objetivo?
A TAP é uma empresa em transformação, num dos momentos mais desafiadores da sua história! Ora, isso é um enorme desafio paraos gestores de pessoas na TAP que são muito mais do que o DRH ou os colaboradores da direção de recursos humanos. Existe uma grande necessidade de “estando ao lado” da própria estratégia da Companhia, desenhar, redesenhar, conceber, estruturar e implementar… um conjunto de novos processos relacionados com o reforço dos aspetos mais positivos da cultura organizacional, que apostem e reforcem desempenhos de excelência e que seja capazes de transformar os nossos clientes em verdadeiros “fãs” da nossa empresa. Obviamente, para isso é necessário ajudar a agilizar os processos, facilitar o acesso a meios e processos relacionados com a gestão das nossas pessoas, de forma mais rápida e mais eficaz, bem como fazer crescer ainda mais o talento, o know-how interno e as competências nas empresas do Grupo TAP. Tudo isto será, como evidente, operacionalizado em vários projetos que terão o seu desenvolvimento asap, com o forte empenhamento da excelente equipa da DRH do Grupo. Mas os grandes desígnios da função do DRH do Grupo estão traçados! Suportar o forte crescimento do negócio da Companhia, alavancar e estimular os processos de transformação organizacional, promover e integrar modelos e processos de desenvolvimento das nossas pessoas e na organização, dotar a Companhia de renovados instrumentos e meios de gestão dos people analitics tendo em vista responder de forma eficaz às necessidades do negócio e acompanhar e gerir de forma proactiva as relações de trabalho entre os vários stakeholders internos e externos. Grandes desafios, certo?

Sem dúvida… E a TAP vai continuar a contratar nos próximos tempos?
Sim, a TAP vai continuar a contratar. Até ao final do ano vamos contratar uma centena de novos tripulantes… a nossa operação está a aumentar, novas rotas e destinos e novos aviões ultra modernos vão chegar a partir do próximo ano… e há reais necessidades de reforçar as equipas de bordo: pilotos e assistentes de bordo. Muito trabalho a fazer neste âmbito, também…

Mas… afinal, o que que vai mudar no âmbito da gestão de recursos humanos na TAP?
Bom… (sorriso) não gosto especialmente da expressão “Recursos Humanos”… exatamente porque as pessoas são, sem dúvida, o bem mais precioso da nossa TAP. São as nossas pessoas que fazem a diferença na prestação de um serviço de excelência aos ossos passageiros, são as pessoas que podem agregar valor e fazer o cliente final viver a melhor experiência da sua vida… Afinal, muito mais do que “simples recursos” (que podem ser geridos…), as nossas pessoas são a “cor, o sorriso e o brilho” da nossa Companhia! São elas que, todos os dias, a todas as horas (algures no mundo!) fazem as coisas acontecer e levam consigo a inspiração, a energia positiva, a motivação e o entusiasmo em serem reais agentes de negócio da nossa Companhia. Porém, permitam-me sublinhar o facto de ser minha intenção exatamente estimular um aprofundamento nos relacionamentos entre as várias empresas do Grupo TAP. Eventualmente, esse aspeto é para mim mais relevante hoje (ou, pelo menos, a consciência de potenciar essa maior interação) dado as funções exercidas anteriormente nos diversos papéis já descritos. No que respeita às políticas, práticas e processos de gestão de pessoas, existem muito bons exemplos e casos já trabalhados e testados pelas diversas empresas do Grupo. Logo, não temos todos de estar a inventar tudo de novo… Podemos partilhar, integrar, trabalhar em equipa e construir a partir de algo já trabalhado por outros… para benefício de todos e do próprio Grupo. Mas, concretizando…
No âmbito dos processos de desenvolvimento de pessoas, vamos de imediato desenvolver um conjunto de processos essenciais no âmbito da gestão da performance, da identificação e desenvolvimento de competências “core”, dos valores e cultura organizacional e “inaugurar” novas formas de chegar às nossas pessoas, ao que elas têm de preciso, valorizando o seu know-how e a sua experiência. Entre outros projetos já pensados, vai nascer a Universidade TAP! Chegou o momento de valorizar o muito que a TAP tem “construído” aos longo dos anos em termos de competências estratégicas para o setor da aviação, de desenvolver skills de “alto nível” para os nossos profissionais. Vamos, igualmente, acelerar e reforçar os processos de digitalização e apostar no redesenho de uma área de RH Analitics que nos possibilite ser mais proativos e menos reativos em relação ao negócio. Vamos reestruturar aquilo que chamamos “RH no Negócio”… dando uma maior autonomização aos responsáveis RH que diretamente intervém como parceiros dos vários negócios do Grupo. People & Business vão passar a estar definitivamente ligados… Vamos ter muito trabalho pela frente….

Percebi ao longo da nossa conversa (aliás, já sabíamos…) que privilegia a expressão e o sentido de “Gestão de Pessoas” em vez do de “Gestão de Recursos Humanos”… Para si o que é ser um bom Gestor de Pessoas?
Um bom gestor de pessoas é alguém que consegue, em simultâneo, desafiar, desinstalar, mobilizar, obter sinergias, mas também valorizar, reconhecer e confiar… naqueles que são o bem mais precioso das empresas – as Pessoas – por forma a que se consigam atingir resultados. Gosto de pessoas, de trabalhar com pessoas, mas nunca perco de vista o foco nos objetivos e nos resultados. Sou por natureza “muito irrequieto”, comunicativo, talvez até excessivamente interativo! Gosto de arregaçar as mangas e ir ao “terreno” falar com as pessoas e viver os seus momentos mais significativos. Assim, procuro estar próximo (presencialmente ou de forma digital), por forma a potenciar um maior link entre as nossas pessoas e as nossas organizações internas, na procura das melhores soluções para podermos prestar TODOS – cada um à sua medida e no seu contexto específico – um serviço de excelência aos nossos clientes. Não sei se sou, desta forma, um bom gestor de pessoas… Mas, também, não estou a pensar ser um paradigma disso… Até porque gestores de pessoas nas nossas empresas são muitos mais do que os responsáveis pelas áreas de GRH. A gestão de pessoas não é uma área fechada, claramente definida, é um enorme processo interno nas organizações e sobretudo uma fórmula de aproveitamento do principal ativo das organizações.

Durante o desenvolvimento da sua carreira inspirou-se em algum Líder?
Não foram muitos os líderes com quem trabalhei que verdadeiramente tenho nesse estatuto “de inspiradores” para mim… Muito poucos, aliás… Mas recordo (sem dizer nomes…) um, talvez dois… que ainda hoje me serve de exemplo. Sim, e é pelo exemplo que um líder se pode tornar inspirador… Alguém que me ajudou a perceber o verdadeiro valor das nossas ações e os múltiplos impactos que as mesmas podem ter nas nossas pessoas. Mas, sabe Cristina, que gosto sobretudo de fazer um outro exercício? Também gosto muito de me inspirar nos “liderados”… em elementos das minhas várias equipas, com quem interagi ao longo dos tempos, e que foram as minhas grandes fontes de inspiração diárias.

E é assim que vai fazer agora na TAP?
A TAP é a melhor Companhia do mundo! Por isso, os colaboradores podem esperar um DRH parceiro, facilitador, comunicador e muito empenhado em ajudar nos processos de transformação e mudança. Mas também um interlocutor privilegiado entre os diversos stakeholders internos, por forma a ultrapassar barreiras e superar desafios. Mas, reformulando a questão colocada, isso é o que os colaboradores podem esperar desta direção de recursos humanos – de toda a equipa sem exceção – pois não acredito em feitos de “um Homem só”, mas de realizações de equipa. E este é apenas o início da viagem… e eu sei que estou em boa Companhia!

Entrevista in RHmagazine, n.º 112, Setembro/Outubro 2017

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